Negra Devoção

Trezentos e cinquenta anos… Esse foi o tempo da escravidão no Brasil. Contando como início da nossa história a chegada de Cabral, em 1500, nós brasileiros temos mais tempo como nação escravocrata do que como país de homens e mulheres livres. É bem possível que nem os netos das pessoas que estão hoje lendo este texto estejam vivos quando este tempo chegar a um empate, daqui a 160 anos.

Esse parece ser um jeito ruim de começar a falar de uma exposição de fotografias, mas, por causa do tema e de seu significado, acho que é preciso que seja assim. A escravidão deixou de fazer parte da história do Brasil há tão pouco tempo que é difícil acreditar que muitos de nós brasileiros já se esqueceram ou nada sabem sobre ela.

A história da África faz parte da história brasileira desde que os primeiros homens e mulheres do Congo e de Angola, e que ficaram conhecidos como Bantus, foram trazidos para trabalhar nas plantações de açúcar. Foram mais de 4 milhões de africanos trazidos da África para cá e os Bantus foram a maioria deles. De fato, eles foram tantos que formamos uma sociedade repleta dos costumes e do saber Bantu, que serviram de base para que outras culturas, de outros povos africanos também trazidos como escravos, pudessem encontrar um modo de sobreviver. Quando falamos camundongo, bagunça, cafundó, quiabo, moleque e mais centenas de outras palavras, aparentemente em português, estamos, de fato, falando Bantu.

Esses mais de 500 povos, que habitavam a África central e que tinham uma raiz linguística comum, tiveram seus primeiros contatos com a cultura portuguesa cerca de 15 anos antes do Brasil ser encontrado por Pedro Álvares Cabral, e foram apresentados ao Catolicismo como homens e mulheres livres. Capazes de entender e absorver elementos dessa nova cultura e agrega-los ao seu saber ancestral, os Bantus assumiram o Catolicismo em suas vidas e elaboraram um curioso sistema de crenças que misturava todos os saberes. Eles se tornaram católicos sem deixar de ser Bantus.

Esse catolicismo africano chegou ao Brasil com os escravizados e se organizou em Irmandades de Homens Pretos sob a proteção dos Santos Negros: N. Sra. do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia. Irmandades que serviram como forma de resistência e manutenção de um mínimo de dignidade para, inclusive, enterrar seus mortos.

Celebrando seus padroeiros, coroando seus reis e rainhas, dançando e cantando como forma de oração, os Bantus se conectavam com sua ancestralidade e atualizavam as memórias trazidas da África, que eram o que a escravidão nunca tirou deles.

Esta exposição reúne 30 fotografias feitas nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Maranhão, Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo e Bahia, para mostrar como a cosmologia Bantu se fez presente e se espalhou pelo Brasil.

É o resultado de um trabalho que começou há mais de 8 anos, em Minas Gerais e que me levou a querer saber mais sobre essa emocionante devoção católica e africana que está presente em tantos estados brasileiros.

Da fotografia como um tipo de pesquisa visual e antropológica, até o mestrado em Ciência da Religião foi um caminho longo no tempo, mas curto na percepção de quanto o ambiente acadêmico poderia me ajudar a partilhar esse conhecimento.

Que esse conhecimento aqui partilhado, aumente o respeito e diminua o preconceito sobre uma população que, de fato, é responsável por muito da forma de viver e de entender o mundo na sociedade em que vivemos no Brasil.

 

 Ficha Técnica

 Número de Fotografias:

30 (trinta) em tamanhos variados

Curadoria:

Marco Antonio Sá

Produção e Apoio Institucional e Cultural

Estação Casa Amarela Produções e Serviços

  Assessoria de Comunicação:

Estação Casa Amarela Produções e Serviços (Studio Play Art)

 Fotografia das obras:

Marco Antonio Sá

 

 Exposições realizadas:

  • Núcleo de Estudos Africanos da UNIFESP – São José dos Campos/SP

Período: 24 de outubro de 2016 a 12 de fevereiro de 2017

 

  • Centro de Culturas Negras do Jabaquara – São Paulo/SP

Período: 19 se setembro a 25 de novembro de 2017

 

  • Centro de Cultural da Penha – São Paulo/SP

Período: 20 de junho a 22 de outubro de 2018

 

  • Centro de Estudos Brasileiros – Universidade de Salamanca- Espanha

Período: 15 de outubro a 11 de novembro de 2018

 

  • Galeria Flamboyant da Estação Casa Amarela

Período: 09 de janeiro à 23 de fevereiro de 2019

 

Perfil do Artista

Marco Antonio Sá é fotógrafo free lancer há quase 30 anos, dedicado à pesquisa e documentação dos variados aspectos do patrimônio material e imaterial brasileiro, com ênfase na religiosidade e nas festas populares.

É mestre e doutorando em Ciência da Religião na PUC/SP (2017), com tese relacionada ao Catolicismo afro-brasileiro nas festas de N. Sra. do Rosário e São Benedito, em vários estados do Brasil.

Cursando o doutorado com tese relacionado à Arte Santeira.

Ministrou palestras sobre fotografia e sobre o tema pesquisado no mestrado para grupos de estudo e pesquisa nas faculdades Metodista, UNIFESP e UNIFAI e na Universidade de Salamanca – Espanha

Foi instrutor do curso anual de fotografia promovido pelo Serviço à Pastoral da Comunicação – SEPAC – Paulinas, professor de Produção Fotográfica do Curso Técnico de Publicidade do SENAC no período 2005/2006 e também instrutor de fotografia da ONG Papel Jornal nos anos de 2007/2008.

Fotos em Exposição

 

Página do Artista