Capelas de Santa Cruz

CAPELAS DA SANTA CRUZ DE BEIRA DE ESTRADA

Exposição do Trabalho de Pesquisa por Dóris Bonini

 As Capelas da Santa Cruz de Beira de Estrada são marcos da chegada do homem naquele local e estão espalhadas principalmente em São Paulo e Minas Gerais.

Com o passar do tempo algumas dessas capelas se transformaram em Vilas ou Cidade, outras foram destruídas, outras abandonadas porem, muitas continuam no mesmo local e poucos tem coragem de derruba-las, pois o local é tido como “sagrado”.

Essas Capelas contam a história do povo do local e fazem parte do nosso patrimônio material e imaterial – são como lugares envolvendo objetos e celebrações, saberes, fazeres de ex-votos e muitos outros aspectos.

É comum vermos nas Capelas da Santa Cruz ou nas Cruzes de beira de estrada e cruzeiros, imagens de santos, velas, terços, orações, santinhos e papeis com pedidos.

Isto se deve as tradições africanas e indígenas de que objetos sagrados quebrados devem ser descartados em rios ou em um local sagrado.  Assim, as cruzes de beira de estrada e as Capelas da Santa Cruz são o local perfeito para o descarte destas imagens e objetos.

Existe uma crença de que não se deve levar nada de uma Capela da Santa Cruz ou de um cruzeiro, pois tudo que há no local é para a alma da pessoa que morreu naquele local. Outros porem acreditam que essas pequenas capelas são um abrigo seguro contra lobisomens, almas penadas e assombrações.

Uma curiosidade é que muitas dessas imagens “abandonadas” são depositadas nestas capelas por pessoas que se converteram a uma nova fé a qual não permite a posse de imagens.

Algumas religiões de origem africana ainda se utilizam dessas capelas para fazerem “trabalhos” ou despachos.

As Capelas da Santa Cruz nascem por devoção ou por causa da morte trágica de alguém naquele local. Alguém morreu no local e em sua honra é colocada uma cruz e posteriormente levantava se uma pequena capela. Este é um dos motivos que muitas pessoas ainda temem entrar nelas, pois acreditam que elas são a moradia do espirito das pessoas.

Em frente dessas capelas é celebrada a Festa da Santa Cruz ou Reza da Santa Cruz.

 

FESTA DA SANTA CRUZ

Herança que veio de Portugal com os padres jesuítas na sua missão de catequizar os índios.

As Capelas da Santa Cruz são um símbolo concreto da devoção popular na “Santa Cruz”, ou “Vera Cruz”.

Muitos dos devotos desconhecem sua origem, mas continuam mantendo a tradição e comemoram a Festa da Santa Cruz, pois seus pais assim o faziam.

No dia 3 de maio em frente a algumas dessas Capelas é realizada a “Festa da Santa Cruz” ou a “Reza da Santa Cruz”.

Na sua maioria são festas familiares onde se reúnem para rezar, dançar e honrar a “Santa Cruz”.

A data 3 de maio originalmente celebra o “achamento” da verdadeira “cruz de Cristo” por Santa Helena, mãe do Imperador Romano Constantino no ano de 326 DC.

A Cruz, símbolo do cristianismo era fincada pelos jesuítas nas praças centrais das tribos.

Para facilitar a catequização dos índios os Jesuítas adaptaram a tradicional festa da Santa Cruz de origem portuguesa à cultura indígena, com a inserção da dança indígena: “sarabaque”.

Os índios guaranis tinham dificuldade em pronunciar a palavra “Cruz” e então a chamavam de “Festa da Santa Curuzu” e para os tupis “Santa Curuça”.

A Festa da Santa Cruz é uma festa que mistura cultura, religiosidade, dança, teatro e culinária.

Uma tradição que segundo “Cornélio Pires” se fixou de forma significativa no Vale do Paraíba e para ele é a mais caipira das festas brasileiras.

A devoção a Santa Cruz, cruzeiros e capelas da Santa Cruz era comum nas fazendas, e em torno delas surgiram povoados que deram origem aos bairros da zona rural.

Segundo estudiosos, a Festa de Santa Cruz no Estado de São Paulo marca o início do ciclo das festas juninas, do início do inverno ou ainda do ciclo de maio europeu. Elementos deste ciclo presentes na Festa são o levantamento do mastro, a fogueira (que já não existe mais), os fogos de artifícios (rojões) e os enfeites das cruzes.

Hoje em dia a Festa da Santa Cruz é celebrada em alguns municípios do Vale do Paraíba, embora de maneiras diferentes, mas em todas elas o ponto alto da festa é a elevação do Mastro em Honra a Santa Cruz.

A Dança da Santa Cruz em Carapicuíba, Embu, Itaquaquecetuba, cidades originárias das vilas jesuíticas, têm traços ameríndio-jesuíticos porem em São José dos Campos são as Companhia de Moçambique que dançam em frente às Capelas.

Em 1954 a “Dança da Santa Cruz” (Carapicuíba) foi considerada uma contribuição da cultura índio-jesuítica para a formação do estado de São Paulo, mas hoje em dia ela persiste em poucas localidades.

A FESTA DA SANTA CRUZ E O DESCOBRIMENTO DO BRASIL

Durante a pesquisa uma das perguntas que eu fiz a uma devota é se sabia qual era a origem da Festa da Santa Cruz no dia 3 de Maio. Ela me respondeu assim:

– Foi no dia 3 de maio que a Santa Cruz foi “chantada” (fincada) pela primeira vez no Brasil!

Eu estranhei esta resposta, pois segundo os livros de história, a primeira missa no Brasil foi celebrada no dia 26 de abril. Como eu acredito que a “tradição popular” tem sua “sabedoria particular”, resolvi pesquisar mais a fundo o “porque” daquela resposta.

Para meu espanto descobri que a resposta não era absurda nem errada como imaginei. Ela era a resposta correta, mas de outro tempo: O tempo da tradição que não acompanhou a mudança da história oficial.

Pesquisando descobri que até o inicio do século XIX o “descobrimento do Brasil” era comemorado no dia 3 de Maio.

A data se baseava não em documentos, mas no antigo costume português de dar nome de santos ou de “dias santos” as terras por eles descobertas.

Por muito tempo a Carta de Pero Vaz de Caminha ficou perdida e, lembravam que o primeiro nome dado ao Brasil havia sido “Ilha de Vera Cruz” e “Terra da Santa Cruz”. Deduziram então que deveria ter sido no dia da “Santa Cruz” que o Brasil havia sido descoberto, ou que a primeira missa havia sido celebrada no Brasil.

Somente com a descoberta da Carta de Pero Vaz de Caminha que é a “Certidão de Nascimento do Brasil” que a data do descobrimento foi confirmada como o dia 26 de abril.

A Carta de Pero Vaz de Caminha ficou perdida durante séculos e só foi encontrada em 1773 na Torre do Tombo em Portugal pelo Sr. José de Seabra da Silva. Sua primeira publicação no Brasil se deu em 1817 porem passaram muitos anos até que corrigissem os livros. Somente no século XX, na década de 30 que Getúlio Vargas corrigiu oficialmente a data do Descobrimento do Brasil e da primeira missa.

Durante todos esses anos a tradição continuou comemorando o dia 3 de Maio como o dia da chegada dos portugueses no Brasil

A Festa da Santa Cruz por ser uma tradição católica é comemorada em vários países onde a religião católica teve influência porem o fato de no passado acreditarem que o Brasil havia sido descoberto no dia 3 de Maio somente aumentou a devoção a Santa Cruz no nosso país.  Junte a isso a devoção dos Jesuítas ao símbolo da cruz e também termos a constelação do “Cruzeiro do Sul” acima de nossas cabeças. A Cruz virou um símbolo do Brasil e não é a toa que temos em nossa bandeira o “Cruzeiro do Sul”.

Em 1954 quando o Presidente Café Filho nomeou o general José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque para presidir a Comissão de Planejamento da Nova Capital Federal no centro do país decidiram dar o nome de “Vera Cruz” a nova capital que iria nascer.

Seu plano piloto era em formato de cruz e posteriormente se transformou em um “avião”. Somente quando Juscelino Kubistchek se dispôs a construí la que mudou se o nome para Brasília. E, não foi a toa que a missa inaugural foi realizada no dia 3/05/1957 e recebeu do Papa Pio XII o seguinte comentário:

“No dia de aniversário da primeira missa nas terras de Santa Cruz, muito nos agrada que tão fausta data seja recordada com a celebração da primeira missa em Brasília.”– Papa Pio XII

Este pronunciamento feito em 1957 demonstra que até esta data muitos ainda acreditavam ter sido realizada a primeira missa no Brasil no dia 3 de maio.

A minha pesquisa sobre as Capela da Santa Cruz pretende mostrar que a Capela da Santa Cruz e a Festa da Santa Cruz são  patrimônio cultural de uma tradição viva da região.

A metodologia se baseia num levantamento desde 2012 das tradições populares na cidade e região, além da pesquisa da literatura e entrevistas com indivíduos que participam da festa e devotos.

O levantamento feito apontou diversas capelas que ainda celebram a Festa no dia 3 de maio apesar da resistência dos devotos frente ao calendário oficial da igreja católica e a discriminação pela devoção e organização popular da festa.

Conclui-se que a celebração desta festa mostra sua vitalidade, são construídas e mantem-se na paisagem, memoria e cotidiano das pessoas a ela devotas e praticantes.